Em entrevista exclusiva o jornalista e professor Carlos Castilho fala sobre o fenômeno do jornalismo cidadão na internet.
Lílian Reis e Márcia Rosa
O crescimento do jornalismo cidadão na internet vem trazendo mudanças para prática jornalística, propiciando uma nova relação da sociedade com a informação. A opinião é do jornalista e professor Carlos Castilho, com 35 anos de experiência em rádio, jornal e televisão. Castilho foi editor-chefe do Jornal da Globo e correspondente do Jornal do Brasil no Chile entre outras funções desempenhadas no jornalismo brasileiro.

Foto: arquivo do blog Carlos Castilho.
Em entrevista exclusiva para a Agência de Notícias do Iesb, Carlos Castilho destaca que a internet não inventou o jornalismo cidadão, também chamado de participativo e colaborativo, mas propiciou ao fenômeno uma dimensão inédita na história do jornalismo e da imprensa. “A internet e a web facilitaram tremendamente o exercício da atividade jornalística por pessoas sem qualificação técnica”, afirma.
Atualmente Carlos Castilho dedica-se ao ensino do jornalismo online em faculdades de Santa Catarina e também na Universidade do Texas (EUA). Autor do capítulo Webjornalismo no livro No Próximo Bloco (Editora PUC/Rio-2005), desenvolve pesquisas na área de produção colaborativa online de informações em comunidades sociais.
Há diferença entre os termos jornalismo participativo, colaborativo ou cidadão?
No essencial, as três expressões são similares, porque lidam com o protagonismo do público na produção de notícias. No detalhe, há diferenças que não são consensuais. Participativo: quando o jornalista participa de ações sociais, como no caso do conceito de “jornalismo cívico” quando os profissionais passaram a valorizar a agenda do leitor, em vez de seguir apenas a agenda das elites sociais, empresariais e políticas. Colaborativo: quando o jornalista está envolvido num processo coletivo de produção de noticias envolvendo, por exemplo, membros de uma comunidade social. E cidadão: quando o profissional toma a agenda do público como parâmetro para o seu trabalho. Aqui ele se aproxima do jornalismo cívico ou participativo com uma diferença. O jornalismo cidadão é praticado principalmente por free lancers, enquanto o cívico e o participativo envolvem redações.
O que o jornalismo cidadão traz de novo para o cenário jornalístico?
Este tipo de atividade jornalística trouxe para o campo da informação uma diversidade de perspectivas que não existia antes da internet. A diversidade aumentou a possibilidade de vermos um mesmo fenômeno ou processo de vários ângulos o que nos ajuda a entender melhor a realidade que nos cerca, mas também complicou muito a tarefa de separar o joio do trigo no noticiário.
Qual a diferença entre o jornalismo participativo feito pelos principais portais de notícia brasileiros e as antigas seções de cartas do leitor?
A principal diferença está na interatividade. Na seção de comentários de blogs e portais, os usuários podem interagir tanto com o autor da matéria como com outros leitores. Nas cartas, além da demora na chegada às mãos do editor responsável, o material enviado pelos leitores era selecionado e editado. O que sai publicado é uma fração do que chegou e até mesmo do conteúdo original da carta. Além disso, não há interatividade.
Sobre o papel do cidadão comum na produção jornalística, você acha que o profissional de jornalismo é mais preparado para apurar os fatos e para manter a isenção necessária para dar credibilidade à informação?
Sim, não há a menor dúvida. Esta é a grande diferença entre o profissional e o amador na atividade jornalística. O amador é um repórter de “ocasião”, quando está no lugar certo, na hora certa. Já o profissional, na era da internet, tem que se preocupar mais com o contexto e com a investigação.
Há algum conflito entre esse tipo de jornalismo sem diploma e os profissionais já formados? A participação do cidadão comum na produção jornalística compromete, de alguma forma, o jornalismo profissional?
Não compromete, complementa. O novo contexto do jornalismo contemporâneo, na web, exige uma colaboração entre profissionais e amadores, cada um com sua especificidade. O jornalista profissional não pode estar em todos os lugares e momentos em que ocorrem fatos jornalísticos. Para cobri-los, isto é, colocá-los no contexto adequado para que os leitores possam entendê-los, é necessária a colaboração dos chamados amadores que fornecem a atualidade dura e criam a polêmica, que gera novos fatos e perspectivas.
Você concorda que o jornalismo cidadão é a solução mais barata para os jornalistas, visto que usa a contribuição voluntária de centenas, milhares ou milhões de internautas para fazer a triagem do conteúdo, para refletir os interesses da comunidade? Assim os editores não precisam mais adivinhar o que a audiência quer.
Sim, é mais barata; mas não é o custo que a torna relevante para a atividade jornalística. Se olharmos só para o lado financeiro, veremos apenas pelo lado menos importante da informação. A grande vantagem do jornalismo cidadão é recompor a relação entre as redações e o público, entre os profissionais e os que eu defini como “repórteres de ocasião”. Ele facilita identificar o que uma comunidade pensa, mas só o profissional é capaz de colocar esta preocupação do leitor numa perspectiva mais ampla. É o caso de um crime impactante, por exemplo. A primeira reação da população é a vingança, já o profissional vai ver porque ocorreu e quais as consequências. Quando ele mostra o contexto, a reação inicial da comunidade pode mudar e se tornar menos passional.
O jornalismo colaborativo pode servir de estímulo para os leitores ingressarem no curso de jornalismo?
Pode, mas este não é o seu principal objetivo. É uma mera consequência ou desdobramento. O que devemos, nós os profissionais, é despertar entre os leitores a preocupação pela leitura crítica das notícias. Ler pensando no contexto, ler sabendo que aquela é uma perspectiva e que existem outras.
Veículos de comunicação aceitam a colaboração do internauta, mas fazem questão de manter filtros que nos fazem pensar se o compromisso que possuem não é somente com seu público. Às vezes os editores cortam informações a fim de não se comprometerem e resguardar a reputação do veículo. Qual a sua opinião sobre isso?
A moderação evita excessos, mas reduz a interatividade porque aumenta o trabalho do moderador (nos sites com muitos comentários) e desestimula a participação. Eu defendo os comentários livres de mediação, porque temos que dar aos leitores a possibilidade de aprender a participar de uma discussão. Ele só aprende participando. No meu blog, tive muito trabalho no início, mas hoje, cinco anos mais tarde, os problemas com leitores agressivos, sectários ou mal intencionados são bem raros.