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Jornalismo colaborativo em pauta

Publicado por Agência Iesb em 09/11/2010

Entrevista com Rafael Sbarai, jornalista, editor de mídia sociais da revista Veja e mestre em conteúdo colaborativo.

Por Juliana Novelli e Catarina Seligman

Alguns sites de conteúdo colaborativo contam com o aval do

Rafael Sbarai, editor de mídia sociais da revista Veja.

jornalista para publicar as matérias, em outros modelos são os leitores que determinam se a notícia será publicada, como no caso do Overmundo. Para que seja considerado jornalismo colaborativo, é necessária a mediação de um jornalista?

Depende do que se considera como Jornalismo Colaborativo. Sou da opinião em que a web proporciona diversos níveis de participação – e, entre elas, há a colaboração e a cooperação. Na minha dissertação, considero como Jornalismo Colaborativo a produção da informação realizada por cidadãos, por meio de textos, fotos e vídeos, distribuídos pela rede, sob uma plataforma centralizada informativa e dependente de seus princípios estabelecidos. Os termos de usos descritos nos Websites possuem diferentes formatos, sendo caracterizados por organizações centralizadas ou descentralizadas. A criação de conteúdo é aberta a todos, desde que possuam competências necessárias para contribuir para uma produção considerada relevante ao formato pré-estabelecido no ambiente virtual.

Você fez mestrado sobre conteúdo colaborativo, em sua pesquisa buscou identificar qual a motivação dos cidadãos repórteres para enviar notícias, em linhas gerais a que conclusão chegou? Notou alguma mudança no perfil dos colaboradores brasileiros em relação aos de outras nacionalidades?

Excelente pergunta. Poucas pessoas tocam “nesta ferida”, que é imprescindível ao Jornalismo. Saber qual é o combustível que move pessoas a participar de um meio é essencial para a construção do futuro da profissão. Ficou evidente que o cenário brasileiro virtual coletado busca, na maioria dos casos, o respeito e reconhecimento pessoal perante a um grupo com a possibilidade de contribuir com um canal colaborativo. No entanto, cheguei a conclusão que o reconhecimento e a vontade de pertencer a um grupo – o que não é novo – movem pessoas a colaborar. No Brasil, as pessoas buscam mais visibilidade que no exterior. É questão cultural realmente. Percebe-se, também, que os norte-americanos têm um engajamento maior em colaborar do que qualquer outra nacionalidade estudada.

Como incentivar a colaboração por parte dos cidadãos num país com tantas desigualdades como o Brasil? Os projetos de jornalismo colaborativo daqui alcançam os temas que dizem respeito a parcela da população excluída do processo comunicacional?

O incentivo não depende de inclusão ou exclusão digital. Depende do nível de interação com o conectado à rede. Os projetos que existem hoje, no Brasil, alcançam sim temas que dizem respeito a parcela da população. Infelizmente, o que é destaque da participação do interagente sempre é “buraco na rua”, “chuvas em diversos estados” – ou seja, assuntos sazonais e de hiperlocalidade, que preservam pessoas conectadas ou não à rede.

As pautas abordadas pelos colaboradores seguem critérios semelhantes às da grande mídia? Em que medida o jornalismo colaborativo, consegue suprir a lacuna deixada pelo jornalismo tradicional?

É complicado ter o mesmo formato muito pela vivência e experiência de quem se formou em Jornalismo. São coisas distintas – e que devem ser respeitadas. O Jornalismo Colaborativo pode suprir lacunas no “Jornalismo Tradicional” em fatos considerados “inesperados”, por exemplo. Assuntos sazonais como Terremoto, por exemplo, provocam muitos conteúdos gerados pelo usuário.

Um dos pontos fortes do jornalismo colaborativo é dar voz àqueles que antes não podiam participar no processo de produção das notícias. Os projetos vindos das grandes empresas de comunicação do país cumprem esse papel, uma vez que o conteúdo está sujeito à aprovação dos editores?

Não. Fico com a impressão que existe Colaboração apenas para dizer “minha empresa de comunicação ou publicação on-line está aberta a participação”. Parece uma seção meio que obrigatória – e abandonada. É uma pena, pois muitos frutos podem sair desta parceria. Em grande parte, as seções dos grandes portais não têm feedback – entenda-se retorno com o usuário – e visibilidade. Portanto, qual é a motivação que o sujeito vai encontrar ao colaborar?

Alguns profissionais de comunicação se opõe ao processo de construção colaborativo das notícias, a que você atribui esse comportamento?

Um comportamento que respeito. Apenas isso. Não sou adepto da colaboração a todo instante, mas a vejo como uma necessidade pontual do Jornalismo. Um grande erro que o jornalista tem é achar que o leitor sabe menos que ele. Isso já é coisa do passado.

Na sua opinião, o jornalismo colaborativo vai ganhar força no Brasil? Como os jornalistas podem se adaptar à essa realidade?

Não sei se vai ganhar força. Tenho muitas dúvidas e não cheguei a nenhuma conclusão. Sei da possibilidade de atrair o usuário ao conteúdo e sei como fazer isso. Mas não sei em que nível isso será visto com frequência no Jornalismo. Mas tenho uma certeza: a web – e as novas tecnologias – proporcionaram essa aproximação. No fim do século XVII, um jornal americano já “pedia” a participação do leitor.  Publick Occurrences Both Forreign and Domestick, o primeiro jornal publicado na continente americano, tinha uma de suas quatro páginas de publicação em branco. A idéia era que o leitor produzisse seu próprio fato, acontecimento, antes de repassar o suporte comunicacional a outras pessoas. Portanto, a participação sempre existiu. A web apenas a potencializou.

O que faz um editor de mídias sociais?

Boa pergunta. Não sei. Usam este cargo para definir o meu trabalho, mas não estou certo disso. Nem sei se isso existe, viu. Não sei se consigo respondê-la, mas meu trabalho foge das premissas básicas do Jornalismo de apurar, conversar e produzir reportagens. Transcende isso. Sou o responsável e administro páginas de VEJA em redes sociais e faço uma ponte entre o profissional da comunicação e o leitor. Além disso, busco sempre pensar em novos formatos de contéudo e novos modelos de unir ferramentas ao Jornalismo. Um bom exemplo é o aplicativo de VEJA no Facebook: http://www.facebook.com/apps/application.php?id=127031630658423.

Outro: http://veja.abril.com.br/blog/vida-em-rede/facebook/as-novidades-de-facebook-em-vejacom/.

 

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‘O jornalismo contemporâneo exige colaboração entre profissionais e amadores’

Publicado por Agência Iesb em 25/10/2010

Em entrevista exclusiva o jornalista e professor Carlos Castilho fala sobre o fenômeno do jornalismo cidadão na internet.

Lílian Reis e Márcia Rosa

O crescimento do jornalismo cidadão na internet vem trazendo mudanças para prática jornalística, propiciando uma nova relação da sociedade com a informação. A opinião é do jornalista e professor Carlos Castilho, com 35 anos de experiência em rádio, jornal e televisão. Castilho foi editor-chefe do Jornal da Globo e correspondente do Jornal do Brasil no Chile entre outras funções desempenhadas no jornalismo brasileiro.

Foto: arquivo do blog Carlos Castilho.

Em entrevista exclusiva para a Agência de Notícias do Iesb, Carlos Castilho destaca que a internet não inventou o jornalismo cidadão, também chamado de participativo e colaborativo, mas propiciou ao fenômeno uma dimensão inédita na história do jornalismo e da imprensa. “A internet e a web facilitaram tremendamente o exercício da atividade jornalística por pessoas sem qualificação técnica”, afirma.

Atualmente Carlos Castilho dedica-se ao ensino do jornalismo online em faculdades de Santa Catarina e também na Universidade do Texas (EUA). Autor do capítulo Webjornalismo no livro No Próximo Bloco (Editora PUC/Rio-2005), desenvolve pesquisas na área de produção colaborativa online de informações em comunidades sociais.

Há diferença entre os termos jornalismo participativo, colaborativo ou cidadão?

No essencial, as três expressões são similares, porque lidam com o protagonismo do público na produção de notícias. No detalhe, há diferenças que não são consensuais. Participativo: quando o jornalista participa de ações sociais, como no caso do conceito de “jornalismo cívico” quando os profissionais passaram a valorizar a agenda do leitor, em vez de seguir apenas a agenda das elites sociais, empresariais e políticas. Colaborativo: quando o jornalista está envolvido num processo coletivo de produção de noticias envolvendo, por exemplo, membros de uma comunidade social. E cidadão: quando o profissional toma a agenda do público como parâmetro para o seu trabalho. Aqui ele se aproxima do jornalismo cívico ou participativo com uma diferença. O jornalismo cidadão é praticado principalmente por free lancers, enquanto o cívico e o participativo envolvem redações.

O que o jornalismo cidadão traz de novo para o cenário jornalístico?

Este tipo de atividade jornalística trouxe para o campo da informação uma diversidade de perspectivas que não existia antes da internet. A diversidade aumentou a possibilidade de vermos um mesmo fenômeno ou processo de vários ângulos o que nos ajuda a entender melhor a realidade que nos cerca, mas também complicou muito a tarefa de separar o joio do trigo no noticiário.

Qual a diferença entre o jornalismo participativo feito pelos principais portais de notícia brasileiros e as antigas seções de cartas do leitor?

A principal diferença está na interatividade. Na seção de comentários de blogs e portais, os usuários podem interagir tanto com o autor da matéria como com outros leitores. Nas cartas, além da demora na chegada às mãos do editor responsável, o material enviado pelos leitores era selecionado e editado. O que sai publicado é uma fração do que chegou e até mesmo do conteúdo original da carta. Além disso, não há interatividade.

Sobre o papel do cidadão comum na produção jornalística, você acha que o profissional de jornalismo é mais preparado para apurar os fatos e para manter a isenção necessária para dar credibilidade à informação?

Sim, não há a menor dúvida. Esta é a grande diferença entre o profissional e o amador na atividade jornalística. O amador é um repórter de “ocasião”, quando está no lugar certo, na hora certa. Já o profissional, na era da internet, tem que se preocupar mais com o contexto e com a investigação.

Há algum conflito entre esse tipo de jornalismo sem diploma e os profissionais já formados? A participação do cidadão comum na produção jornalística compromete, de alguma forma, o jornalismo profissional?

Não compromete, complementa. O novo contexto do jornalismo contemporâneo, na web, exige uma colaboração entre profissionais e amadores, cada um com sua especificidade. O jornalista profissional não pode estar em todos os lugares e momentos em que ocorrem fatos jornalísticos. Para cobri-los, isto é, colocá-los no contexto adequado para que os leitores possam entendê-los, é necessária a colaboração dos chamados amadores que fornecem a atualidade dura e criam a polêmica, que gera novos fatos e perspectivas.

Você concorda que o jornalismo cidadão é a solução mais barata para os jornalistas, visto que usa a contribuição voluntária de centenas, milhares ou milhões de internautas para fazer a triagem do conteúdo, para refletir os interesses da comunidade? Assim os editores não precisam mais adivinhar o que a audiência quer.

Sim, é mais barata; mas não é o custo que a torna relevante para a atividade jornalística. Se olharmos só para o lado financeiro, veremos apenas pelo lado menos importante da informação. A grande vantagem do jornalismo cidadão é recompor a relação entre as redações e o público, entre os profissionais e os que eu defini como “repórteres de ocasião”. Ele facilita identificar o que uma comunidade pensa, mas só o profissional é capaz de colocar esta preocupação do leitor numa perspectiva mais ampla. É o caso de um crime impactante, por exemplo. A primeira reação da população é a vingança, já o profissional vai ver porque ocorreu e quais as consequências. Quando ele mostra o contexto, a reação inicial da comunidade pode mudar e se tornar menos passional.

O jornalismo colaborativo pode servir de estímulo para os leitores ingressarem no curso de jornalismo?

Pode, mas este não é o seu principal objetivo. É uma mera consequência ou desdobramento. O que devemos, nós os profissionais, é despertar entre os leitores a preocupação pela leitura crítica das notícias. Ler pensando no contexto, ler sabendo que aquela é uma perspectiva e que existem outras.

Veículos de comunicação aceitam a colaboração do internauta, mas fazem questão de manter filtros que nos fazem pensar se o compromisso que possuem não é somente com seu público. Às vezes os editores cortam informações a fim de não se comprometerem e resguardar a reputação do veículo. Qual a sua opinião sobre isso?

A moderação evita excessos, mas reduz a interatividade porque aumenta o trabalho do moderador (nos sites com muitos comentários) e desestimula a participação. Eu defendo os comentários livres de mediação, porque temos que dar aos leitores a possibilidade de aprender a participar de uma discussão. Ele só aprende participando. No meu blog, tive muito trabalho no início, mas hoje, cinco anos mais tarde, os problemas com leitores agressivos, sectários ou mal intencionados são bem raros.

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