Entrevista com Rafael Sbarai, jornalista, editor de mídia sociais da revista Veja e mestre em conteúdo colaborativo.
Por Juliana Novelli e Catarina Seligman
Alguns sites de conteúdo colaborativo contam com o aval do
jornalista para publicar as matérias, em outros modelos são os leitores que determinam se a notícia será publicada, como no caso do Overmundo. Para que seja considerado jornalismo colaborativo, é necessária a mediação de um jornalista?
Depende do que se considera como Jornalismo Colaborativo. Sou da opinião em que a web proporciona diversos níveis de participação – e, entre elas, há a colaboração e a cooperação. Na minha dissertação, considero como Jornalismo Colaborativo a produção da informação realizada por cidadãos, por meio de textos, fotos e vídeos, distribuídos pela rede, sob uma plataforma centralizada informativa e dependente de seus princípios estabelecidos. Os termos de usos descritos nos Websites possuem diferentes formatos, sendo caracterizados por organizações centralizadas ou descentralizadas. A criação de conteúdo é aberta a todos, desde que possuam competências necessárias para contribuir para uma produção considerada relevante ao formato pré-estabelecido no ambiente virtual.
Você fez mestrado sobre conteúdo colaborativo, em sua pesquisa buscou identificar qual a motivação dos cidadãos repórteres para enviar notícias, em linhas gerais a que conclusão chegou? Notou alguma mudança no perfil dos colaboradores brasileiros em relação aos de outras nacionalidades?
Excelente pergunta. Poucas pessoas tocam “nesta ferida”, que é imprescindível ao Jornalismo. Saber qual é o combustível que move pessoas a participar de um meio é essencial para a construção do futuro da profissão. Ficou evidente que o cenário brasileiro virtual coletado busca, na maioria dos casos, o respeito e reconhecimento pessoal perante a um grupo com a possibilidade de contribuir com um canal colaborativo. No entanto, cheguei a conclusão que o reconhecimento e a vontade de pertencer a um grupo – o que não é novo – movem pessoas a colaborar. No Brasil, as pessoas buscam mais visibilidade que no exterior. É questão cultural realmente. Percebe-se, também, que os norte-americanos têm um engajamento maior em colaborar do que qualquer outra nacionalidade estudada.
Como incentivar a colaboração por parte dos cidadãos num país com tantas desigualdades como o Brasil? Os projetos de jornalismo colaborativo daqui alcançam os temas que dizem respeito a parcela da população excluída do processo comunicacional?
O incentivo não depende de inclusão ou exclusão digital. Depende do nível de interação com o conectado à rede. Os projetos que existem hoje, no Brasil, alcançam sim temas que dizem respeito a parcela da população. Infelizmente, o que é destaque da participação do interagente sempre é “buraco na rua”, “chuvas em diversos estados” – ou seja, assuntos sazonais e de hiperlocalidade, que preservam pessoas conectadas ou não à rede.
As pautas abordadas pelos colaboradores seguem critérios semelhantes às da grande mídia? Em que medida o jornalismo colaborativo, consegue suprir a lacuna deixada pelo jornalismo tradicional?
É complicado ter o mesmo formato muito pela vivência e experiência de quem se formou em Jornalismo. São coisas distintas – e que devem ser respeitadas. O Jornalismo Colaborativo pode suprir lacunas no “Jornalismo Tradicional” em fatos considerados “inesperados”, por exemplo. Assuntos sazonais como Terremoto, por exemplo, provocam muitos conteúdos gerados pelo usuário.
Um dos pontos fortes do jornalismo colaborativo é dar voz àqueles que antes não podiam participar no processo de produção das notícias. Os projetos vindos das grandes empresas de comunicação do país cumprem esse papel, uma vez que o conteúdo está sujeito à aprovação dos editores?
Não. Fico com a impressão que existe Colaboração apenas para dizer “minha empresa de comunicação ou publicação on-line está aberta a participação”. Parece uma seção meio que obrigatória – e abandonada. É uma pena, pois muitos frutos podem sair desta parceria. Em grande parte, as seções dos grandes portais não têm feedback – entenda-se retorno com o usuário – e visibilidade. Portanto, qual é a motivação que o sujeito vai encontrar ao colaborar?
Alguns profissionais de comunicação se opõe ao processo de construção colaborativo das notícias, a que você atribui esse comportamento?
Um comportamento que respeito. Apenas isso. Não sou adepto da colaboração a todo instante, mas a vejo como uma necessidade pontual do Jornalismo. Um grande erro que o jornalista tem é achar que o leitor sabe menos que ele. Isso já é coisa do passado.
Na sua opinião, o jornalismo colaborativo vai ganhar força no Brasil? Como os jornalistas podem se adaptar à essa realidade?
Não sei se vai ganhar força. Tenho muitas dúvidas e não cheguei a nenhuma conclusão. Sei da possibilidade de atrair o usuário ao conteúdo e sei como fazer isso. Mas não sei em que nível isso será visto com frequência no Jornalismo. Mas tenho uma certeza: a web – e as novas tecnologias – proporcionaram essa aproximação. No fim do século XVII, um jornal americano já “pedia” a participação do leitor. Publick Occurrences Both Forreign and Domestick, o primeiro jornal publicado na continente americano, tinha uma de suas quatro páginas de publicação em branco. A idéia era que o leitor produzisse seu próprio fato, acontecimento, antes de repassar o suporte comunicacional a outras pessoas. Portanto, a participação sempre existiu. A web apenas a potencializou.
O que faz um editor de mídias sociais?
Boa pergunta. Não sei. Usam este cargo para definir o meu trabalho, mas não estou certo disso. Nem sei se isso existe, viu. Não sei se consigo respondê-la, mas meu trabalho foge das premissas básicas do Jornalismo de apurar, conversar e produzir reportagens. Transcende isso. Sou o responsável e administro páginas de VEJA em redes sociais e faço uma ponte entre o profissional da comunicação e o leitor. Além disso, busco sempre pensar em novos formatos de contéudo e novos modelos de unir ferramentas ao Jornalismo. Um bom exemplo é o aplicativo de VEJA no Facebook: http://www.facebook.com/apps/application.php?id=127031630658423.
Outro: http://veja.abril.com.br/blog/vida-em-rede/facebook/as-novidades-de-facebook-em-vejacom/.

