Diego Gomes e Gerson Alencar
Acessar conteúdos específicos, parar a programação, fazer compras ou ainda escolher o angulo das câmeras para assistir um concerto. Tais recursos são apenas algumas das aplicações de interatividade que deverão chegar aos domicílios brasileiros por meio da TV digital.
Para que isso se tornasse realidade, foi desenvolvido o Ginga – um software ou middleware, em linguagem mais técnica – que faz a ponte entre o sistema operacional do receptor da televisão e as aplicações de interatividade criadas e disponibilizadas aos telespectadores. Produzido no Rio de Janeiro, por alunos e professores da Pontifícia Universidade Católica (PUC-Rio), o Ginga é a plataforma da interatividade da TV Digital brasileira, 100% nacional.
Um dos responsáveis por essa revolução digital e considerado o “pai do Ginga”, o professor titular da PUC-Rio Luiz Fernando Soares esteve no último dia 11 de maio no Instituto de Educação Superior de Brasília (Iesb) ministrando a palestra “Interatividade se faz com Ginga”.
Membro da World Wide Web Consortium, do Conselho de Administração do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto Br, e do Fórum Brasileiro de TV Digital, Luiz concedeu entrevista à Agencia de Notícias, na qual revela detalhes do Ginga e fala dos impactos que tal inovação poderá provocar no cotidiano dos brasileiros.
O que é o Ginga e quais as suas aplicações?
O Ginga é fruto de anos de pesquisa feita em parceria entre a PUC do Rio e a Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Ele é um middleware que serve como plataforma para os recursos de interatividade nos receptores de TV digital. As aplicações são as possibilidades de interação que os produtores de conteúdo vão oferecer. Podem ser várias coisas, desde informações adicionais sobre um filme ou programa TV até o espaço para vendas. Imagine um jogo de futebol, por exemplo. Nele, as interatividades podem ser as mais diversas, como comprar a camisa do time para o qual você torce ou uma bola da mesma marca da utilizada no jogo, bem como simular escalações e discutir lances em fóruns.
Ao descrevê-lo como uma plataforma para recursos de interatividade, você acha que o Ginga poderia ser comparado com algum sistema operacional, como o Windows?
De certa forma, pode se dizer que sim, mas não com um OS (operational system) como Windows, Mac ou Ubuntu-Linux. Essas são arquiteturas muito complexas que foram feitas para darem conta de vários processos internos e externos simultâneos, algo que é exclusividade dos computadores. O Ginga é uma plataforma de desenvolvimento para as aplicações. Logo, as semelhanças dele estão voltadas para os SDK (software development kits) Porém, o Ginga também é um open-source, o que o aproxima, na devida proporção, é claro, do Ubuntu-Linux.
Qual foi o propósito ao criar um programa open source?
Abrir o espaço para que o aperfeiçoamento da plataforma seja constante, e que essa evolução dependa apenas do fato de alguém parar para estudar a arquitetura e ter vontade de melhorar o Ginga.
O que representou para o país o desenvolvimento desse software 100% nacional?
Em primeiro lugar, representa economia, pois, com ele, estamos livres do pagamento de licenças e direitos autorias pelo uso de similares produzidos em outros países. Em segundo, o Ginga é considerado a ferramenta mais avançada do gênero, o que fez dele referência de tecnologia para a TV Digital para vários países.
Outros países já podem manifestar interesse em adotar essa tecnologia?
Há muitos países da América Latina, Ásia e Europa interessados em adotar o Ginga em seus modelos de TV Digital. Esse interesse certamente vai aumentar com a recente aprovação da União Internacional de Telecomunicações (UIT), da ONU, do nosso software. A partir de agora, a indústria global passa a dispor do middleware mais avançado do mundo, totalmente livre de royalties. E essa chegada da tecnologia brasileira de ponta sem custos de royalties representa uma quebra de paradigma da TV digital na UIT. Pois, até então, a arquitetura recomendada para interatividade era baseada no Global Executable MHP (GEM), que tem custos de royalties associados.
A engenharia que envolve a produção de TV terá de ser repensada para implantação do Ginga?
Não para a implantação do Ginga em si, mas, sim, para a permanência no mercado da comunicação. Os produtores de conteúdo terão a oportunidade e, de certa forma, a obrigação de criar atrações inovadoras – algo completamente diferente do que é feito hoje. Será uma questão de sobrevivência para as TVs. Inversamente, as interações vão trazer aumentos expressivos de custos. Um programa como um Você Decide, por exemplo, contando com três finais diferentes, terá o seu custo de produção multiplicado por oito. Isso, certamente, motivará a repensar a fórmula de propaganda e da venda de anúncios nos veículos.
Quando a interatividade se tornará, por assim dizer, palpável, chegando às casas dos brasileiros?
A tecnologia está pronta, mas houve muitos atrasos no cronograma da implantação da TV Digital. A interatividade, que era para ser implantada logo no início do funcionamento da TV Digital em São Paulo e no Rio, começou a ser funcional há pouco tempo, ainda em caráter de teste.
Com esse perfil de interatividade, a TV poderá rivalizar com a Internet?
Eu sempre digo que a interatividade não é o carro-chefe da TV digital. A TV não é um computador. Ao comparar esses dois veículos, incorre-se num erro terrível, pois tratam-se de mídias completamente diferentes. É por isso que falamos em convergência, porque a interatividade da TV nunca substituirá a Internet. Do mesmo modo, que a Internet jamais mostrará programas ao vivo como as TVs. Convergência não significa que algo vai ocupar o lugar de outra coisa, mas, sim, cooperar.
Com essa série de recursos disponibilizados pela interatividade, corre-se o risco de o telespectador dispersar ou, até mesmo, se irritar com essa profusão de informações?
A interatividade tem de ser utilizada com parcimônia, porque aborrece o telespectador, se usada em demasia. Como disse na palestra há pouco, imaginem a cena de um casal assistindo a uma partida da seleção brasileira de futebol. De repente, ocorre um gol. A mulher, então, acha bonito o calção que um dos times está usando e aciona o dispositivo para diminuir a tela e aparecer a interatividade. Certamente, o homem vai querer matá-la. Por isso, a interatividade na TV é algo chato. Quem tenta preencher algum dado com o controle remoto da TV, normalmente, se cansa e desiste. TV não é para isso. TV não é texto. TV é vídeo. Sem falar que a interatividade é cara e dispendiosa.