Escolas disponibilizam aos pais desde imagens em tempo real até informações completas sobre o desempenho escolar dos alunos.
Marcela Sá e Pedro Rito
Notas de provas, faltas, observações da rotina escolar e imagens em tempo real dentro do colégio. Todas essas informações estão disponíveis nos portais de escolas de Brasília para acesso diário dos pais. Embora o sistema seja importante, os pais devem ficar atentos à forma de utilização para evitar exageros e conflitos.
Segundo a orientadora educacional da escola Leonardo da Vinci, Jane Mara Castello Branco, o programa foi criado devido à dificuldade dos pais em acompanharem a rotina diária dos seus filhos. “Com o projeto em prática os pais puderam começar a participar, acompanhar e entender como eles estão se desenvolvendo na escola”, afirma. Para ela, é uma oportunidade dos pais terem um “feedback” da situação escolar dos seus filhos.
No portal da escola, os pais podem acompanhar o boletim, as tarefas diárias, a parte disciplinar, os conteúdos das provas e agenda diária. No entanto, mesmo com tantas informações, muitos pais não têm o hábito de acompanhar. Nesse caso, segundo Jane, os pais ficam surpresos quando são chamados para comparecer na escola e se deparam com a situação dos filhos.
Kátia Maia, jornalista e mãe dos irmãos Bernardo e Guilherme Maia, estudantes do Leonardo da Vinci, disse que acessa até três vezes por semana. “Para os pais é ótimo, pois é uma forma de comunicação entre pais e escola, mas para as crianças é um pouco chato, porque acham que é uma supervisão constante”, analisa. Segundo ela, se mentirem ou não contarem, os pais saberão do mesmo jeito. “Eu digo para não deixarem aparecer no site, pois se já estiver considero como verdade e não tem como desmentir”.
Na opinião da psicóloga especializada em crianças e adolescentes e mestre em Desenvolvimento Infantil, Sanmya Salomão, a internet é importante para o acompanhamento mas é preciso ter cuidado. “É primordial que a criança tenha um espaço de privacidade e uma vivência escolar diferente da que tem em casa. Por isso é bom que alguns momentos escolares sejam só delas, não sendo todos compartilhados com os pais”, ressaltou.
Para ela, a internet nunca vai conseguir suprir a informação de como são as vivências das crianças, como o momento em que sentiu rejeitada e o esforço para se integrar. “A internet pode ser perigosa, se pensado que ela invade o espaço individual vivido pela criança e transporta isso para a família, que pode interpretar a informação de diversas maneiras sobre o modo de a criança aprender, interagir e se desenvolver”, disse.
Câmeras
O portal do colégio Ciman oferece aos pais além de dados escolares, a possibilidade de ver o filho em tempo real. São 160 câmeras espalhadas pelas salas de aula, pátio interno e estacionamento. Segundo a assessora da escola, Martha Mendes, o sistema tem o objetivo de oferecer segurança aos pais e manter uma proximidade com o dia-a-dia das crianças e com a escola.
O uso da ferramenta foi tão intenso que deixou a administradora e estudante de Direito, Lílian Câmara, angustiada. Mãe de Pedro Henrique, de 8 anos, estudante do Ciman ela acha a alternativa ótima para os pais verem o desenvolvimento dos filhos, mas se usada sem exagero. “Como as câmeras são espalhadas pelos corredores, cantinas e pátios eu ficava tensa, obcecada a espera do aparecimento dele”, afirmou. Com o tempo, Lílian percebeu que estava ficando muito ansiosa para ver Pedro. “Usufruí muito mas não estava sendo saudável e além de perder meu tempo não era necessário”, completou.
Em relação às câmeras, a psicóloga Sanmya Salomão acredita que pode não ter tanta utilidade, pois pode causar apreensão e criar conflitos. “Os colégios, pais e orientadores devem começar a pensar sobre a legitimidade da câmera e até que ponto isso não pode ser uma invasão de privacidade, pois criança também tem sua vida”, ressalta. De acordo com ela, se for sempre vigiada, a criança nunca vai aprender a agir de maneira natural. “Os pais devem dar espaço ao crescimento dos filhos, pois a criança precisa ter conceitos e vivências próprias”.